• Alexandre Prandini

Os antídotos contra a mácula condominial

Síndico profissional reflete sobre as dificuldades da administração em lidar com os "moradores do contra", citando os gatilhos dos conflitos e como resolvê-los


Artigo fala sobre as "sujeiras" do mercado condominial, criadas tanto pelos maus profissionais, quanto pelos moradores e conselheiros.

Por Alexandre Prandini

Estou há a cerca de 30 minutos pensando em como começar esse artigo. Não consigo encontrar a forma de explicar que estamos enlouquecendo, ou melhor, estão nos enlouquecendo…


Por muito tempo me cobrei de uma comunicação mais eficaz, com resumos mensais, treinamento de funcionários e circulares, imaginando que o erro era falta de comunicação. 


Talvez seja ela também, mas apenas isso não resolveria o fenômeno dos ataques infundados, que a gestão predial é obrigada a conviver diariamente.


Por mais habilidades que o síndico desenvolva, nada parece ser eficiente contra o fenômeno dos "Leões de teclado", dos "Heróis de grupos de WhatsApp" ou dos "Peritos de tudo" – os MacGayver condominiais.


E vou inserir aqui as pessoas decepcionadas que se envolvem na gestão, acham nela o caminho de frustrações ou de períodos sabáticos. 


Parece bobagem, mas tudo está interligado. Observe o mundo que estamos colhendo! São agressões a síndicos, síndicos orgânicos agredindo moradores, moradores agredindo porteiros e moradores agredindo moradores...


Perdemos a capacidade de morar no coletivo? A raça humana só se desenvolveu devido à coletividade e o que nos trouxe até aqui (senso de coletividade), está nos destruindo? 


Olhando como uma lupa, percebemos que esses fatos nascem de um ponto. Sempre começa com pequenos atos, comentários disfarçados (mas direcionados) e grupos que, com pouquíssimos fatos ou informações, analisam situações e entendem ter condições de gerir o condomínio melhor que a gestão, vendendo por aí a famosa pílula milagrosa.


E repentinamente "Boooom", vira tudo uma loucura! São grupos de grupos, grupos para impugnar decisões, grupos para reintegrar funcionários, grupos para tudo…a vida vira Whatsapp e a impressão é que tudo desmorona.


Em um segundo, um comentário ou uma observação não medida explode em um problema político sem base sustentável nenhuma e incontrolável. Senso do razoável se perde ou se dilui muito rapidamente entre várias pessoas.


Mas há foro para tudo, e parece que as massas condominiais se esqueceram disso. Não dividem ideias, não entendemos ainda que a gestão de um condomínio é algo coletivo e existe uma regra para que essas ideias e opiniões se apoiem, inclusive hierarquia, mas sabe como é: "O síndico não manda em mim".


Mas o que provoca esse fenômeno? Bom, após muito falar com síndicos, advogados, pessoas ligadas ao mercado, como eu e você, percebo que temos um conjunto de situações na minha opinião os gatilhos mais comuns são:


  • EDUCAÇÃO E TRADIÇÃO: Falta educação orientativa para o respeito com limites ao próximo. A sensação disso não existir na internet é tão tentadora que faz diversas pessoas falharem com ética e respeito. Tradicionalmente, nosso povo reflete no mercado condominial a mesma visão e as expectativas da política nacional. E na realidade temos motivos. Esse mercado foi inóspito por muitos anos e ainda carrega máculas de profissionais que deterioraram o mercado, mas que não têm mais espaço hoje em dia;

  • DESCONHECIMENTO DE MERCADO: Vejo muitas expectativas frustradas por entender que a velocidade de um condomínio é idêntica a de uma empresa. No entanto, as deliberações são muito mais escrituradas, e a tendência sempre é uma decisão coletiva, o que frustra conselheiros e moradores em fatos óbvios, mas não tão óbvio assim para um condomínio. Traduzindo, não é tão simples quanto se pensa e as celebrações devem passar por uma certa formalização que não e bem aceita na prática;

  • TENSÃO NACIONAL: Parece que não, mas nosso povo vive tenso. Os últimos anos foram além de toda dificuldade da pandemia. Anos de decepção, de estagnação nacional, tensão econômica, falta de estabilidade nacional. Mais de 50% da população vive em tensão financeira,seja indireta ou diretamente. E isso acaba refletindo em um comportamento repulsivo à obrigação de pagamento da cota condominial;

  • FENÔMENO PANDEMIA: Fui um grande defensor de que as assembleias virtuais são o melhor caminho para nossa proximidade. Ainda assim, vejo o quanto ela nos afasta também, e acertar nessa medida será uma habilidade para o futuro sindico;

  • CRESCIMENTO DESREGRADO DO MERCADO: Todo o tipo de empresas (e eu incluo os síndicos), que acabam dando voz e razão a desconfianças e aqui, assim como digo há muitos anos, cada um de nos tem que fazer sua parte de ser ético e decente para fortalecer o mercado;

  • PESSOAS DECEPCIONADAS: Existe uma gama de pessoas decepcionadas por vários motivos, seja profissional, pessoal, etc, que acabam achando no condomínio um caminho para, ficticiamente, se fortalecer no ambiente onde moram;

  • OPORTUNISTAS: Eu achava que esse fato era apenas uma história, até acontecer comigo. O trabalho de síndico atrai muitos moradores. A maior parte incapazes, que acabam concorrendo com você indiretamente, pois seguem de olho no valor de sua remuneração. 

Porém, em meus longos dias, faço parte de algumas das pessoas que busca melhorar esse quadro de alguma forma.


Nosso crescimento, do nosso mercado, depende de, juntos, desenvolvermos um conjunto de pensamentos coletivos sobre esse tema e criar um antídoto para combater esse fenômeno que vem deixando tantos de nossos amigos doentes.


E mais: criando tantas situações de risco nos condomínios e espantando bons profissionais desse mercado e atraindo pessoas indecentes para ele.


E o antídoto não é o mesmo para todos casos, então, vamos ser amplos aqui. O objetivo é tentar trazer o máximo de ferramentas e opções para testarmos, avaliando e, também, caminhando com você lado a lado para conhecer o que funciona.


1. Know your customer (conheça seu cliente)


Esse já foi um jargão empresarial e acho que pode ser o nosso pontapé. 


Visitei Malsow, a pirâmide de necessidades humanas, para avaliar aqui o perfil de cada condomínio, entender as demandas e momentos de necessidades, os tipos de classes sociais e como eles pretendem usar e consumir os empreendimentos.


E hoje já vemos empresas de comunicação de elevadores fazendo isso muito bem com propagandas, ou seja, propagandas que têm sucesso em um bairro de classe A não são as mesmas que fazem sucesso na classe C.


Portanto, a faceta de comunicação para um tipo de condomínio tem muita ligação com a necessidade do que cada população está esperando ou procurando em seus condomínios.


E o ponto mais interessante de tudo isso é que faz sentido para qualquer prestação de serviço em condomínios, se quer atender bem Know your customer.


2. Legado e história do condomínio


Em um café com meu amigo Odirley Rocha (costumamos fazer isso só para ver como está o mercado e trocar ideias, coisa de amigo), falávamos de como nasce um condomínio e identificamos junto outro problema: a falta de profissionalização na implantação de condomínios ou na continuidade de um condomínio.


É um conjunto de problemas sem solução, expectativa dos moradores, necessidade dos moradores, obras, falta de acompanhamento do condomínio por parte de construtoras, educação dos moradores, regramento...e, normalmente, tudo isso gera um condomínio que no futuro com terá problemas sérios de estrutura comportamental, física e até segurança (vamos evoluir isso em outro artigo).


3. Ética acima de tudo


Neste mercado, você se deparara com diversas situações, mas se for ético e honesto acima de tudo, sempre ficará bem e se manterá forte.


4. Capacitação


Não posso deixar de dizer aqui que temos que apostar em construir habilidades. Eu leio, em média, três a quatro livros por mês de vários assuntos diferentes, cada um coopera com uma área para aplicar em minha gestão.


Falo com o máximo de pessoas do mercado, participo de palestras e acompanho todos os líderes do segmento condominial. Faça isso, e verá quanta informação navega ao seu entorno e você não conhecia. 


Para finalizar, mácula não é um padrão, é um defeito. No dicionário ela quer dizer "marca de sujeira, de impureza ou de cor diferente sobre um corpo; nódoa, mancha, sujeira".


Portanto caro leitor do mercado, seja síndico, conselheiro, prestador de serviço ou morador, eu preciso de você para varrer essa sujeira dos condomínios. Juntos montamos um mercado forte e cuidaremos dele sempre. 


Veja mais em https://www.sindiconet.com.br/informese/os-antidotos-contra-a-macula-condominial-colunistas-alexandre-prandini

1 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo